12/02/18 Febre amarela

Surto evidencia risco de epidemia de outras doenças no Brasil

De acordo com o Ministério da Saúde, no período de 1º de julho de 2017 e 30 de janeiro deste ano, foram registrados 213 casos de febre amarela, sendo que 81 pessoas foram a óbito. No mesmo período do ano passado (entre julho de 2016 e janeiro de 2017) foram 468 casos confirmados da doença e 147 mortes.
Atualmente, já foram notificados 1.080 casos suspeitos, sendo que 432 foram descartados e 435 permanecem em investigação. Apesar de ser a febre amarela silvestre - o vírus está circulando apenas em ambientes de mata -, especialistas apontam que a reurbanização da doença é iminente e os riscos de contaminação em massa nas cidades são altos. "Temos mosquito que transmite o vírus da doença nas cidades, como o Aedes aegypti. Se não houver o controle desse vetor, o risco da febre amarela entrar nas cidades, diante do atual surto, é muito alto", relata Bernardino Alves Souto, docente do Departamento de Medicina (DMed) da Universidade Federal de São Carlos e líder do Grupo de Pesquisa Clínica e Epidemiológica Aplicada em Ciências da Saúde.
De acordo com o docente, "a febre amarela apresenta surtos de vez em quando, principalmente em áreas de alta circulação viral, como matas e seu entorno. A doença atinge uma população mais suscetível e o surto acontece. Depois as pessoas ficam imunizadas e o quadro fica mais brando. No entanto, a intensidade do surto atual está muita alta, provavelmente devido a um grande desequilíbrio ecológico que oportunizou a intensidade da circulação viral em volta das matas, de onde a doença está vindo". Alves Souto afirma que esse é o pior surto de febre amarela já ocorrido no Brasil desde a década de 1930 e sua alta intensidade pode provocar a reurbanização da doença. "Se vier uma pessoa com febre amarela para São Carlos nos primeiros dias da doença, há risco dessa pessoa ser picada pelo Aedes aegypti e contaminar esse mosquito. Uma vez contaminado, o mosquito poderá transmitir o vírus da febre amarela a outras pessoas", alerta o pesquisador.
A vacinação contra a febre amarela é uma barreira importante, principalmente nesse momento de forte surto, "mas só com ela não vamos vencer essa guerra, ainda que possamos vencer uma primeira batalha. É preciso investir no combate eficaz do mosquito transmissor, o que também vai evitar outras doenças, como dengue, chikungunya e zika, que ameaçam novas epidemias no Brasil", afirma Alves Souto. Pesquisa recente realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, comprovou o potencial de transmissão do vírus da febre amarela pelo Aedes aegypti e também apontou para a importância do combate aos criadouros do mosquito. "Por isso que combater os mosquitos é primordial para evitarmos epidemias ainda mais desastrosas", reforça o professor da UFSCar.

Combate histórico e ineficaz
"O Brasil sempre combateu epidemias de dengue por meio de medidas de baixa eficiência; medidas focais de impacto paliativo e imediatista mediante um modelo de gestão pouco produtivo e nunca enfrentou as causas socioambientais, políticas e econômicas da doença. Sempre se negou a intervir sobre o modelo social e urbano de desenvolvimento responsáveis por agravos dessa natureza. Nosso sistema de saneamento ambiental, de coleta, reciclagem e destinação do lixo, de planejamento urbano, entre outros, são extremamente atrasados e subservientes aos interesses especulativos em detrimento do interesse da vida e do bem-estar das pessoas. Nossa cultura é individualista, consumista, competitiva e o combate à dengue e a essas outras doenças exige o contrário. A educação e a formação de pessoas no Brasil também sempre foi negligenciada ao ponto de dificultar as pessoas de cuidarem adequadamente de si e do ambiente. Desde que reintroduzidas no Brasil na década de 1980, as epidemias de dengue, por exemplo, têm vindo cada vez mais mortais, mais próximas umas das outras e mais agressivas, como se estivéssemos lançados à própria sorte e não tivéssemos nenhuma possibilidade de defesa", relata Alves Souto.
De acordo com o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, em 2017 (dados contabilizados até o início de setembro), foram 219.040 casos de dengue notificados, sendo que a maior incidência dos casos estava nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. Foram confirmados 88 óbitos causados pela doença no Brasil e outras 222 mortes estão sob investigação para certificação da causa por dengue. 

Prevenção
O professor da UFSCar aponta que, além das iniciativas do poder público, é preciso que a própria população esteja engajada na luta contra o mosquito e adote medidas de combate aos criadouros e de preservação do ambiente e da saúde.
Sem esses cuidados e essa força-tarefa integrada da sociedade, o pesquisador acredita que novas epidemias serão inevitáveis nos próximos anos e alerta que elas podem gerar impactos consideráveis nos âmbitos social, econômico e da saúde. "Epidemias de dengue, febre amarela, zika e chikungunya geram absenteísmo no trabalho, muito sofrimento físico e psicológico, algumas mortes, intensa sobrecarga ao serviço de saúde, aumento significativo nos custos do sistema de saúde, crescimento no consumo de medicamentos, além de complicações de outras doenças que o infectado já possui", afirma ele. "Nenhum custo sanitário, social e econômico relacionado à prevenção dessas doenças, sequer, se aproxima do custo que é deixar uma epidemia acontecer. O custo econômico de uma epidemia supera, e muito, o da prevenção. Fora o custo social e humano, que não tem como medir", complementa Alves Souto. Scatolini considera que a prevenção ainda é a melhor ação e defende que, além das iniciativas e campanhas já estabelecidas pela Prefeitura de São Carlos, a participação efetiva da população nesta causa é essencial. O professor da UFSCar acrescenta: "As pessoas precisam ter consciência que dengue e febre amarela podem matar; que chikungunya e zika podem deixar sequelas; e que o saneamento ambiental, ainda que obrigação do poder público, não pode ser negligenciado pelo indivíduo nos espaços por ele frequentados porque o interesse é dele mesmo".
Para Bernardino Alves Souto, além da robusta mobilização social que envolve a mudança do modo como a pessoas vivem, convivem e produzem o desenvolvimento, é preciso construir cidades com espaços e oportunidades mais saudáveis, equilibrados e distribuídos com equidade. "Para erradicarmos essas doenças do nosso País, os municípios precisam ter mecanismos de drenagens pluviais adequadas, com coleta, destinação, tratamento e reciclagem de lixo eficientes. É preciso ter planos diretores preservacionistas do meio ambiente e que priorizem o bem-estar das pessoas; investir amplamente em saneamento e educação ambientais. A construção, a administração e a manutenção das cidades precisam mudar para um modelo com características mais humanizadas, mais sanitárias e menos especulativas", conclui o professor.

 


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Rachell Ferrari