Hipertensão arterial ou pressão alta?

Com o desenvolvimento da raça humana na face da terra, houve a necessidade de seus organismos desenvolverem sistemas de defesa para sobrevivência, entre eles o renina angiotensina aldosterona, responsável pela elevação da pressão arterial, deixando os indivíduos primitivos mais aptos a lutar e “vencer” na vida.

Mas o que é a pressão arterial?
Ela é conseqüência da resistência que os vasos, artérias, arteríolas e capilares oferecem ao sangue que é bombeado pelo coração. Até algumas décadas atrás, pensava-se que apenas a pressão máxima (sistólica) seria prejudicial. Hoje sabemos que ambos os níveis da pressão, quando se elevam são perigosos.

E quais os níveis de pressão são desejáveis?
São “toleráveis” níveis de até 140×90; são “ótimos” 120×80 e, alguns estudos mostram quex níveis de 110×70 seriam “ideais”.
Hoje sabemos que a incidência da hipertensão arterial aumenta com a idade; assim, na força de trabalho, em torno de 25% a 30% dos indivíduos são hipertensos e, entre 70 e 80 anos de idade, três quartos das pessoas são hipertensas.
Lembrando que a maioria dos casos de hipertensão são assintomáticos, não causam sintomas, sendo por isso a doença chamada de “assassina silenciosa”. Muitas vezes, pacientes que apresentavam dor de cabeça (cefaléia) ao tratarem a hipertensão se viram livres deste sintoma.

O que podemos fazer para diminuir a pressão sem tomar medicamentos?
A primeira medida é diminuir a quantidade de sal (sódio) que se utiliza na elaboração e se acrescenta à alimentação. Metade dos casos de hipertensão arterial estão relacionados com o consumo excessivo do sal. A segunda medida é aumentar a atividade física, com exercícios aeróbicos de trinta a sessenta minutos de duração, cinco a sete dias por semana. A hora de exercícios pode ser dividida com meia hora de atividade aquática. A terceira é ingerir cinco porções de frutas ou vegetais diariamente. A quarta é perder peso. Algumas vezes, a perda de dois ou três quilos pode baixar a pressão.

Vale à pena lembrar que em mulheres jovens, o uso da pílula anticoncepcional pode ser a causa da elevação da pressão e, em ambos os sexos, e em qualquer idade, o uso abusivo do álcool pode causar o mesmo efeito. Em um trabalho científico, publicado em 2004, ficou demonstrado que o consumo moderado do álcool pode ser benéfico (para o homem, até duas taças de vinho, diáriamente, três a sete dias por semana e, para a mulher, apenas uma taça).

Como descrevemos, a pressão tem dois componentes, a máxima ou sistólica e a mínima ou diastólica, e cada um destes componentes pode se elevar nas vinte e quatro horas do dia, apenas durante o dia (diurna ou da vigília) ou à noite (noturna ou do sono).
Sabe-se também que, em torno de dez por cento dos pacientes que vão ao consultório do cardiologista, apresentam uma elevação expressiva da pressão arterial a qual ocorre durante ou precedendo a consulta, conhecida como “hipertensão do jaleco branco” (do inglês “white coat hipertension”), a que eu a chamo de “hipertensão do especialista”, pois ocorre apenas no consultório do cardiologista.

No Brasil, o grande problema é que a hipertensão arterial é a maior causa dos acidentes vasculares encefálicos (AVE) que matam ou incapacitam milhares de pacientes, anualmente. Grande parte destes “acidentes” podem ser evitados com o uso adequado do tratamento.

Existem hoje, seis classes de fármacos que, isolados, associados às “medidas não farmacológicas” ou associados entre si, em combinações de até cinco ou seis medicamentos, tornam a grande maioria dos casos de hipertensão controláveis. Habitualmente, são necessários três medicamentos que, associados, controlam 75% dos pacientes hipertensos.

Durante recente Congresso Internacional de Cardiologia, chamou-se a atenção para a associação crescente entre sedentarismo, adesão ao “fast food”, obesidade, níveis elevados de colesterol e triglicérides, intolerância à glicose (ou diabete sacarino) e hipertensão arterial, causando a síndrome cardiometabólica, com maior risco de ocorrência de doenças cardiovasculares, como angina de peito, infarto do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais.

É importante ainda salientar a existência de um tipo de hipertensão, “hipertensão arterial mascarada” que ocorre em 9% dos pacientes acometidos e que consiste na detecção de lesões de órgãos alvo (cérebro, aorta, olhos, rins e coração), lesões que são habitualmente encontradas em pacientes hipertensos, sem nunca terem apresentado a pressão arterial elevada durante uma consulta médica. Este diagnóstico só pode ser feito com o desenvolvimento de equipamentos que monitorizam ambulatorialmente a pressão arterial (MAPA) constatando níveis elevados da pressão arterial, assim que o paciente se afasta do consultório médico ou que não apresentam a queda normal (fisiológica) da pressão, durante o sono.

Um novo conceito de “pré-hipertensão” ou “pressão normal alta” demonstra que pacientes com níveis de pressão limítrofes (130 a 139 para a máxima e 80 a 89 para a mínima) quando tratados, preventivamente, com medicamentos, podem ter benefícios através dos anos, com menor ocorrência de doenças cardiovasculares .

Dr. Alberto F. Piccolotto Naccarato é cardiologista, responsável técnico do Centro Diagnóstico Cardiológico de Campinas. 

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