Lembranças perdidas

Segundo pesquisa realizada no ano passado pela Alzheimer Disease International, até 2050, o Mal de Alzheimer pode atingir 135 milhões de pessoas. O estudo apontou, ainda, um crescimento de 22% nos últimos três anos.
Classificada como uma doença neurodegenerativa, ela corresponde à perda das múltiplas funções cognitivas, que na medicina é identificada como demência, e se caracteriza pela dificuldade em reter memórias recentes, adquirir conhecimentos, manter a atenção, expressar a fala corretamente, ter motivação nas ações e até fazer cálculos ou julgamentos de valor.
Embora apresente diversos fatores de risco para o seu desenvolvimento como histórico familiar, Apolipoproteína E (uma proteína presente na circulação), Síndrome de Down e existência de traumatismos cranianos, muitos associam a doença ao envelhecimento – segundo a Alzheimer’s Association, em 12 países, 59% dos entrevistados defendem essa tese, erroneamente.
De forma geral, o Alzheimer pode afetar o cérebro de qualquer pessoa, e os médicos calculam cerca de 10 anos do início da doença até o óbito. Em sua fase inicial, a doença compromete a memória de curta duração, utilizada para ações da rotina diária, assim, o indivíduo começa a esquecer nomes e onde deixou seus pertences, até que passa a realizar as tarefas pela metade como, por exemplo, esquecer o que foi fazer no quarto, deixar o fogão aceso ou se perder no caminho de volta para casa. Nas próximas etapas, os esquecimentos se tornam cada vez mais presentes e tendem a se agravar à medida que a pessoa é obrigada a executar mais de uma tarefa por vez. Planejamentos, controle de finanças, cálculos e preparo das refeições também são algumas das habilidades que se perdem, seguida de atividades essenciais, como se vestir ou tomar banho. Em graus mais acentuados, a dificuldade de aprendizado é o principal sintoma, percebida pela falta de memorização de palavras ou caminhos percorridos. Em seguida, a linguagem é comprometida de forma que o indivíduo, mesmo conseguindo se comunicar, não sabe o significado correto do que está dizendo. Noção de espaço e localização ou reconhecimento de áreas e lugares também se comprometem com a ação da doença.
Com o agravamento do quadro, as funções motoras são prejudicadas: subir e descer escadas, executar gestos de comando ou simplesmente caminhar se tornam cada vez mais difíceis. Na fase avançada, a percepção das próprias deficiências é perdida e surgem ainda mais sintomas como a incapacidade de reconhecer faces, desorientação espacial, incapacidade de controle dos esfíncteres (músculos que retém ou liberam a urina), alteração do ciclo de sono/vigília e mutismo, causando total dependência de terceiros.
Embora não tenha cura, a doença deve ser evitada com tratamento preventivo e, quando já desenvolvida, pode ser tratada para retardar o declínio cognitivo e controlar os sintomas.
Estudo realizado pela San Francisco VA Medical Center, nos Estados Unidos, mostra que mais da metade dos casos de Alzheimer poderiam ser potencialmente prevenidos com mudanças no estilo de vida e tratamento de prevenção. Durante a análise, os pesquisadores perceberam que alguns fatores eram extremamente associados à doença – sedentarismo, depressão, tabagismo, diabetes, hipertensão na meia idade e obesidade neste mesmo período da vida. Além de evitar os fatores de risco e manter a saúde em dia, a aquisição de conhecimentos também é importante, pois auxilia no desenvolvimento do cérebro e cria novas conexões entre os neurônios (sinapses), aumentando a reserva intelectual, o que retarda o aparecimento das manifestações de demência. Em paralelo, diversos estudos já apontaram que as atividades físicas funcionam como ação preventiva à doença.
Quando já desenvolvida, a doença causa déficit nos neurotransmissores, moléculas que atuam na condução dos estímulos nervosos transmitidos de um neurônio para outro, assim, ocorre redução da atividade da acetilcolina por ação de enzimas, diretamente associada ao declínio cognitivo. O tratamento é realizado com medicações que inibem a ação enzimática responsável pela degradação auxiliando os pacientes a manter as habilidades para poderem executar as atividades básicas da rotina. O objetivo é retardar a evolução e preservar, por mais tempo possível, as funções intelectuais, por isso, quando o tratamento é iniciado nas fases mais precoces as respostas são ainda melhores.
É importante estar atento e, no caso do surgimento de quaisquer sintomas ou comportamento diferente, é essencial que o indivíduo procure um neurologista para identificar a possível existência da doença. Lembrando que hábitos de vida saudáveis contribuem não só para a prevenção do Mal de Alzheimer, mas também de diversas outras doenças.  
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