Vida (nada) real

Há mais de 15 anos, um dos mais influentes psicanalistas da Inglaterra, autor de dez livros e editor da nova tradução da obra de Sigmund Freud, Adam Phillips, concedeu uma entrevista a um jornalista brasileiro, afirmando que a ideia de uma vida boa havia sido substituída pela de uma vida a ser invejada.
Não é novidade que as mídias sociais potencializaram a necessidade de exibição da vida particular. As pessoas querem o tempo todo mostrar onde estão, o que estão fazendo e com quem. Mas isso parece ter fugido um pouco do controle, passando do limite o bom senso. Há casos de usuários que deixam de aproveitar momentos simples ou fazer algo prazeroso, para buscar mostrar algo mais glamouroso, o melhor ângulo, forçar uma situação apenas para despertar a inveja de outros. Mas por que isso acontece? O que motiva essa troca? 
Por que as pessoas, hoje em dia, preferem trocar momentos simples, que lhes dão prazer, por momentos que esperam, sejam invejados? Por que querem tanto se sentir o centro das atenções? Por que consomem tanto, sem precisar ou mesmo querer, apenas para mostrar e ostentar? Por que precisam tanto mostrar uma vida feliz e de sucesso?
Eis um dos grandes dilemas da sociedade atual: Por que a ideia de uma vida boa e simples foi substituída pela de uma vida a ser invejada?

Com a palavra, os especialistas: 

Ivan Capelatto, psicólogo e psicoterapeuta

Estamos vivendo o que chamamos em Psicanálise “A Sociedade do Espetáculo”, em que viver deixou de ser uma simples comunhão com o outro, com o meio, com desejos e passou a ser uma maneira de “subjugar o outro”, através da forma social de “estar em outro lugar com outros valores”. Assim, adquirir coisas, construir ou comprar uma supercasa (onde muitos cômodos, a piscina, a quadra nem são usadas), um super carro, o iPhone da moda, construir um corpo esteticamente perfeito, são formas de tentar construir um “si mesmo” através da inveja, do comentário, da ostentação que subjuga o outro. Não há um prazer real nisso, pois as coisas vão se tornando banais e aparece outro desejo de ter mais e mais, sem limites. É a doença do Século XXI, onde as crenças, valores e ética se perderam (em todas as gerações) e o que dá um “sentido” à vida é o poder (ter o poder de ter objetos).

Margaret Montgomery, psicóloga e psicoterapeuta

Nas redes sociais, precisamos nos projetar como felizes e bem. Não projetamos infelicidade. O ego não aguentaria. Temos, hoje, um imediatismo do ego, em que queremos sempre estar bem, ou com a bolsa do momento, o sapato famoso, o relógio de marca, a roupa recém-lançada… Isso nos projeta como pessoas felizes e amadas. Fingimos acreditar que se nos inserindo neste movimento de seremos amados, teremos amigos, seremos mais populares. Esquecemos por um momento quem realmente somos e como realmente vivemos. Acredito que demonstrar felicidade nas mídias sociais não significa que esteja realmente vivenciando felicidade. Prazer imediato e ostentação de prazer dado em um “click”, fala só da minha imagem projetada não de quem realmente eu sou. ESTAR não quer dizer SER.

Marilucia Nucci Vacchiano, psicanalista e psicoterapeuta 

As pessoas fazem suas escolhas de acordo com seus desejos. Muitos, nas mídias sociais mostram o bom, o belo, o gostoso, o agradável. Às vezes com certo exagero. Talvez uma necessidade do reasseguramento dos amigos, ou então a busca da personificação, de ser único, feliz, mostrando o lado bom que vivem. É uma tendência bem forte da atualidade, da “modernidade líquida”, segundo o conceito de Zigmunt Bauman, filósofo e sociólogo polonês, que exprime a inconsistência das coisas. Por outro lado, há pessoas que escolhem uma vida simples, mas plena do que acreditam ser viver bem; convívio com amigos-irmãos, cuidados com a saúde, harmonia nas relações, muita qualidade com menos. Mais de SER e menos do TER.

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